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Guia do Aventureiro

Lore do Domadora

Atualizado em : 03/09/2026 15:22 (UTC-3)

Ilha Hee-Mo


No ponto mais distante do Oriente, há uma ilha imensa repleta de feras ferozes. A Ilha Hee-Mo era totalmente intocada pela civilização humana, e a sobrevivência do mais apto era a única lei que governava essas terras. No entanto, em um ato de desespero, uma mulher viajou até essas ilhas carregando uma criança recém-nascida em seus braços.

 

Já ferida e vinda de uma longa viagem, a mulher usou o restante de suas forças para carregar a pequena criança o mais longe possível. Atravessar a floresta revelou-se difícil demais e, antes que pudesse alcançar qualquer lugar seguro, sucumbiu aos ferimentos e morreu, deixando a recém-nascida sozinha e indefesa. Uma fera que passava por ali, talvez atraída pelo cheiro de sangue, interessou-se pela criança. A fera pegou o bebê e decidiu criá-lo junto com seus próprios filhotes.

 

A criança cresceu, quase selvagem, mas a pureza de seu coração permaneceu intacta. Ela cuidava das feras feridas após as lutas, brincava com os novos filhotes e tornou-se parte integrante da matilha. No entanto, havia um humano que também chamava a Ilha Hee-Mo de lar. Este sábio, Hwi-Sa, retornou após uma longa viagem em busca de um sucessor e ficou instantaneamente intrigado com aquela garotinha que havia surgido na ilha durante sua ausência. Hung-Nang, uma fera lendária, também se afeiçoou imediatamente à menina e decidiu acolhê-la como se fosse sua.

 

Com a ajuda de Hung-Nang, Hwi-Sa conseguiu se comunicar com a garota e, aos poucos, as tendências animalescas desapareceram. Mesmo quando a comunicação era difícil, a jovem absorvia os ensinamentos de seu novo mestre. Sua coragem a ajudou a domar as feras da ilha, e ela aprendeu a manejar suas próprias garras enquanto praticava a esgrima.

 

Contudo, a garota continuou a crescer, e com ela a sua curiosidade. Começou a questionar quem ela era e como havia parado naquela ilha. Ela desceu até a costa em busca de pistas sobre sua chegada. Ao percorrer o perímetro da ilha, atravessando rochas e explorando cavernas, descobriu um barco velho, quase totalmente coberto pela vegetação local. Aquele não era o barco de Hwi-Sa. Ela inspecionou o exterior e viu marcas estranhas, mas nada que pudesse identificar a embarcação com clareza. Ao olhar dentro do barco, encontrou alguns trapos sujos. Puxou-os para fora e, ao desenrolá-los, um lindo grampo de cabelo caiu no chão. Ela o recolheu e o levou de volta a Hwi-Sa.

 

Hwi-Sa estava sentado, sereno, apoiado de costas em Hung-Nang. Hung-Nang foi o primeiro a pressentir a aproximação e cutucou seu mestre na direção da jovem. Sem dizer uma palavra, ela lhe entregou o grampo de cabelo.

"Eu quero saber mais sobre como cheguei até aqui, então fui até a costa e encontrei isto. Por favor, não fique bravo comigo" disse a jovem garota, timidamente.

 

Hwi-Sa não parecia zangado, mas tão intrigado quanto ela. O grampo de cabelo era primorosamente trabalhado, com belos detalhes em ouro e pedras de jade incrustadas. Era verdadeiramente uma joia magnífica. Ele o devolveu à garota.

 

"É um grampo de cabelo, incrivelmente bem trabalhado, provavelmente pertencente à nobreza. Contudo, eu desaconselho buscar diretamente o seu passado. Às vezes, as rochas do presente soterram um passado terrível, e talvez este seja o caso aqui." Hwi-Sa deitou-se novamente sobre Hung-Nang, com uma expressão impassível que a jovem garota não conseguia decifrar.

 

Enquanto Hwi-Sa e Hung-Nang dormiam, a garota deixou o acampamento e seguiu em direção ao barco de Hwi-Sa. Ao pisar nas areias da praia, sentiu um aperto no peito. Nunca tinha visto a civilização antes, mas agora estava prestes a zarpar em uma grande jornada. A água fria do mar bateu em suas pernas enquanto empurrava o barco em direção às ondas e pulava a bordo. Ela precisava conhecer seu passado antes que pudesse forjar seu futuro. Conforme os remos tocavam a água quase em silêncio, sentia como se os olhos atentos de Hung-Nang e Hwi-Sa continuassem a vigiar cada movimento seu.

 



◈ Despertar


Ao chegar às margens do mundo humano, ficou maravilhada. Não havia nada além de civilização até onde a vista alcançava. A única outra pessoa que já havia conhecido era seu mestre e, de repente, viu-se cercada por mais e mais pessoas. Milhares de indivíduos se aglomeravam nas ruelas do mercado, e o aroma de especiarias e pães recém-assados enchia suas narinas. Ficou fascinada por tudo o que o mundo tinha a oferecer. Queria explorar mais, mas tinha uma missão em mãos.

 

Ela vagou pelo mundo, de cidade em cidade, de vilarejo em vilarejo. Cada local trazia à garota algo novo para aprender e vivenciar. Aprendeu muito sobre a cultura e a sociedade humanas durante suas viagens. A miséria dos pobres e a aparente extravagância dos ricos a enfureciam, mas sentia que aquele não era um mundo onde pudesse provocar mudanças.

 

A cada parada em sua jornada, ela perguntava sobre o grampo de cabelo, mas ninguém sabia de nada. Por algumas vezes, bandidos tentaram roubá-lo dela, mas ela lidou com eles com extrema facilidade.

Um dia, deparou-se com uma antiga biblioteca, quase em ruínas, com estandartes rasgados pendurados no teto. Os belos emblemas de uma casa esquecida estavam manchados de sangue seco. Algumas das paredes da biblioteca haviam sido derrubadas, e marcas de queimado cobriam partes do chão onde uma fogueira havia sido feita, provavelmente com a madeira das estantes destruídas ao seu redor. Ela vasculhou os escombros, impulsionada mais pela curiosidade do que por um objetivo definido, quando a porta se abriu. Escondeu-se atrás de um pilar e observou uma senhora idosa, não mais alta que ela mesma, entrar. A senhora caminhou até um enorme retrato de família pendurado na parede e depositou um simples, porém belo buquê de flores. A idosa virou-se e avistou a jovem garota.

 

"Minha criança, o que faz em um lugar como este?"

 

Mas a garota não respondeu; em vez disso, fitou o grampo de cabelo ornamentado que aparecia no retrato. Era quase idêntico ao que ela segurava em suas mãos.

 

"Quem são essas pessoas?" perguntou a jovem. Em vez de responder de imediato, a senhora ofereceu à menina um lugar para ficar, onde poderiam conversar melhor assim que a noite caísse sobre a cidade. Naquela noite, a jovem soube de sua família e da guerra civil que assolou suas terras. Ficou sabendo do golpe bem-sucedido, do massacre de todos os leais à família e, por fim, da criada que resgatou e fugiu com a jovem princesa em meio ao caos. A garota descobriu que ela era essa mesma princesa e, após entender tudo sobre sua linhagem, sentiu o coração em paz. Agradeceu à anfitriã pela noite e partiu rapidamente de volta para a ilha.

 

A viagem de volta foi muito mais rápida e tranquila. Sua curiosidade já não a fazia se desviar pelo caminho e, antes que percebesse, já estava na base da ilha. No entanto, não teve a sensação de ter chegado ao lar. Algo havia acontecido. Os pássaros não cantavam, as feras não se moviam e ela não conseguia sentir a presença de Hung-Nang. Correu rapidamente montanha acima. O cheiro forte de sangue vinha do topo. Corpos de soldados e feras cobriam o caminho até o refúgio de seu mestre. Ao chegar lá, encontrou Hwi-Sa deitado contra Hung-Nang, como faziam com frequência, mas a vida já os havia abandonado. Ela se ajoelhou ao lado deles, observando os ferimentos fatais que sofreram, e chorou. Sabia que eles haviam morrido por causa dela — sua presença havia chamado atenção demais nas cidades —, e sabendo que seus pais haviam sido assassinados, sentiu que qualquer um próximo a ela sofreria o mesmo destino.

 

Ela empilhou pedras sobre os corpos criando uma sepultura improvisada e cravou sua Espada Curta no solo acima dela. Despediu-se pela última vez e desceu a encosta da montanha. Ao cruzar um trecho íngreme, sobressaltou-se ao ver uma sombra negra surgir à sua frente. A criatura esperava pacientemente do outro lado da rocha, fitando-a com atenção e, conforme ela se aproximava, a sombra abriu os olhos e esfregou-se em seus tornozelos. Ela soube de imediato que aquele filhote era uma fera Hung-Nang, e em sua boca ele carregava o Báculo Celestial, a arma mais estimada de Hwi-Sa. A garota aceitou a arma e decidiu acolher o pequeno filhote sob sua proteção. Embora fosse fraco agora, um dia ele seria forte o bastante para se tornar um valoroso companheiro de viagem.

 

Juntos, eles voltaram para o barco e rumaram para o oeste, em direção à civilização, para mais uma vez encontrar um novo lugar para chamar de seu. Com o Báculo Celestial de seu mestre e o jovem Hung-Nang ao seu lado, sentiu que o mundo se abria repleto de novas possibilidades.